
1
A TENTAÇÃO
Betsabá banhava-se nua dos pés à cabeça, sem se dar conta (ou mesmo ou muito mais porque se dando) de que David, de lá de onde estava, delirantemente a lambia com os olhos, a beijava com a imaginação, a apalpava com a fantasia e a penetrava com o desvario.
Ele, sim, o ruivo, bem apessoado, gentil e cobiçoso David, segundo Rei de Israel, filho caçula de Jessé, o belemita, e neto de Obede. Aquele mesmo David que, quando ainda miúdo, metido em um surrão de pastor e só tendo às mãos a sua funda e o seu cajado, com uma pedrada desmontou Golias, o assombroso guerreiro filisteu de quase três metros de altura e todo vestido para a guerra, só a couraça a lhe pesar mais de cinquenta e cinco quilos. E não se contentando, o que ainda mais fabulosa torna a história toda, fez pouco do escudeiro do gigante e da ameaçadora soldadesca inimiga que estava por perto, avançou sobre o que sobrava do desconjurado, tomou-lhe a espada que lhe jazia à beira do corpo despencado, decepou-lhe a cabeça e a ergueu encristado para a enfurecida contemplação e para a barulhosa ufania das inflamadas fileiras de Saul.
E assim o era pois que, mal saído da sesta e a cumprir umas voltas pelo terraço do palácio real, vinha David de dar de cara com aquela paisagem de desmaliciosa vocação ou de camufladas segundas intenções, quando, estacando ao puxão do estupor e arrancado da piedosa gestação de um daqueles seus salmos de inspirada devoção, logo sentira que as carnes se lhe incendiavam e que a prudência se lhe desconjuntava pela luxúria.
De princípio nem quis ele acreditar no que as vistas lhe viam, chegando mesmo a sacudir a cabeça de um lado para o outro, enquanto que repetidamente cerrava as pálpebras desassossegadas, remédio de que aprendera a se valer para aterrissar na realidade, sempre que se surpreendia arrebatado pelos desenfreios das divagações. Mas nem assim apagou, ao menos naquela vez, a deslumbrante cena de lascivo fascínio que lhe alagava a mente e lhe alvoroçava a genitália, o corpo já pronto para a embriaguez da volúpia.
Que se testemunhe, seja para não esbofetear a verdade, sejo só por só para não desgostar o monarca, que até teria ele, arranhando a sensatez que somos obrigados a simular enxergar nos que nos têm sob o mando, ensaiado procurar outros ares, distrair-se com qualquer nonada, despregar-se, enfim, daquele encanto que desembestadamente o narcotizava. Que até um copo de vinho teria comandado, que até duas ou três tâmaras teria mastigado, que até algumas palavras teria se esforçado em trocar com um cortesão que lhe viera consultar, manso e solene, sobre qualquer desejo que pudesse ter a servil ventura de lhe satisfazer. Mas eis que, como que empurrado por uma irresistível mandinga, terminava voltando sempre ao mesmo posto de acidental ou provocada observação, embora manhosamente empenhado em dissimular a sua exaltação, consumido como estava pelo antegosto da pressagiada comunhão carnal.
Obstinação que se não desmanchava em desperdício, já que lá continuava Betsabá, com aquele sorriso seráfico a lhe ornar as faces de um que de bem-aventurada formosura angelical, com aqueles olhos amendoados que se adivinhavam de um translúcido castanho esverdeado, com aquela pele trigueira de úmida maciez pressentida, com aqueles longos e ensopados cabelos negros que como que em cascata derramavam-se por sobre os seus ombros desnudos.
E ainda os arrebitados seios de auréolas de um marron desmaiado, o ventre engolido, as ancas largas, os glúteos arredondados, as coxas rígidas e carnudas, o corcovo e triangular morrete, enfim, que altivamente se lhe alçava no ninho da entrepernas, não mais que vestido por uma rala penúgem que mais o delatava que o disfarçava.
Não bastasse, a parecer que vagava ensimesmada, o olhar navegando por paragens impressentidas, lá ia ela a mapear, com as tímidas pontas dos dedos delgados, cada recanto da sua própria escultura, agora campeando a circunferência dos mamilos e experimentando a turgidez dos seios, depois ameigando o pescoço, os braços, as ancas, o ventre e as pernas, mais tarde as internando nas profundezas do interfemínio, como que a garimpar os prodígios do paraíso.
E tudo caminhava no que dava a confiar que a cumprir o rigoroso roteiro de uma afrodisíaca liturgia, açulando em David, peito arfante, mãos suadas, ventre afogueado, uma frenética urgência por lhe sentir os odores, por lhe beber os humores, por lhe cavalgar os arquejos, por lhe transpor o portal que caprichosamente escondia, por se esvair, enfim, na celebração do humano sacramento da sensual conglobação.
Quando até já se convencia David, contudo, pois que era o mínimo que lhe apetecia, de que aquele estonteante ritual estava destinado a um nunca mais acabar, eis que Betsabá, quando menos ele esperou, mais do que ligeiro se ergueu, delicadamente espremeu os cabelos, apressadamente se enxuguou de cima a baixo, cobriu-se com tardio pudor, correu a cortina e deu o espetáculo por terminado.
2
OS PECADOS
David não suportou a sufocação de mais do que três agoniados percursos na plataforma em que se erigia o suntuoso terraço palaciano.
Um brado discreto, embora majestático, e logo um outro já trovejante e a não disfarçar a sobressaltante inquietação e a prenunciada fúria reais, já teve a quem ordenar lhe desse todas as notícias de tudo o quanto dissesse respeito à sedutora protagonista da teatral e feérica aparição. E foi de pronto logo decretando que a conduzissem à sua alcova, com a severa advertência de que não toleraria qualquer tardança, fazendo claro que nada lhe interessavam os relatos de que se tratava de Betsabá, a filha do juramento, aquela que vinha na descendência de Elião. Nem tampouco que fosse casada e ainda por cima mulher de Urias, o hitita, valoroso homem de armas e leal oficial a seu serviço, do raro tipo a quem, apesar das futricas palacianas e das cizânias que de comum rondam e assombram os cetros monárquicos, poderia o rei confiar seu diadema e sua própria vida.
O que valia, pelo que estava convicto e a todos se apressou em deixar bem cientes, inclusive à meia dúzia de esposas e ao tanto de concubinas que já tinha ao seu dispor, era que sendo ele quem sim era o senhor, enquanto Urias não mais que seu súdito e Betsabá a prenda a que seu corpo cobiçava, por mais que fiel, honrado e destemido que fosse o marido, por mais recatada e virtuosa que fosse a mulher, não havia homem nem lei no mundo que lhe pudesse castrar o poder de reclamá-la, muito menos de nela derramar a chama dos seus ardores.
Havia, é certo, os divinos, atentos e sobrevigilantes olhos do Todo Poderoso, naqueles tempos em que ainda mantinha alguma convivencialidade com as suas criaturas pensantes, notadamente as gentes das tribos de Israel, a ponto de não apenas conferenciar com os seus patriarcas, mas de também de lhes endereçar mensagens, prenúncios, recomendações, advertências e reprimendas, para isso se socorrendo de arautos convertidos em juízes e profetas. E bem sabia David que o nono dos comandos do Decálogo, corpo de preceitos que fora sancionado por Javé e promulgado por Moisés, era incisivo ao abominar que qualquer homem ao menos desejasse a mulher alheia. Coisa sorvida, portanto, sem qualquer gesto ou palavra que a denunciasse, sem qualquer ato que a compartilhasse, para que só pela intenção já se consumasse o execrável crime de adultério.
Sábio como dizem que era, porém, talvez tenha David dado um salto no tempo, assistido aos dias de hoje nos mundos ocidentais e antecipado a consciência de que tal intolerância já então era coisa sem razão de ser, só podendo ser atribuída ao fato de que ainda andava o Supremo Legislador aferrado a preconceitos assentados em tempos imemoriais e cujas atualidades estavam fadadas ao esquecimento. E naqueles idos, pelo que terá pensado, com mais sustentantes razões ainda, uma vez que a ele já era consentido o cortejo de uma multidão de fêmeas, todas por ele a um só tempo teúdas e manteúdas, pelo que fazia prova bastante a densa população dos seus aposentos privados.
Mas poderá ter David acreditado, por outra, que o Altíssimo lhe teria outros planos, já que de fato generosamente o discriminara entre todos os demais, não só quando um dia lhe garantira a glória em tudo e por tudo a princípio improvável no entrevero com Golias, como mais tarde, quando incomodado com a desobediência de Saul e de modo a definitivamente carimbar a sagrada preferência, ordenara que fosse ele feito cabeça coroada. Ou então, o que não é de todo implausível, tanto mais quando a carregar a mente ofuscada pelos relâmpagos da paixão, teria atinado para a verdade de que nem mesmo se poderia dizer que era Urias israelita, pelo que mais do que justificado que, sendo ele, David, o rebento e o rei do povo eleito, arriscasse a tolerância do Senhor dos Exércitos.
O fato é que, uma vez estando Betsabá em sua magna presença, não teve ele rédeas para segurar o ímpeto que o regia desde as entranhas, pelo que nem esperou que ela, naquele dia, como mais tarde o faria, professasse, reverentemente prostrada aos seus pés, que era ele o seu rei e o seu senhor e ela a sua serva para sempre. Daí por que sem uma só palavra sitiou-lhe o corpo com seus braços atléticos, desfrutou-lhe os lábios, invadiu-lhe a boca com a sua língua atrevida, arrancou-lhe as vestes com rigor de emergência e, sem ter ao menos tempo de alcançar o leito, deixou-se possuir por ela enquanto a possuia, ali mesmo sobre o tapete que lhe decorava a antecâmara do quarto monárquico.
Não se advertira ele, entretanto, se bem que bem o devesse fazer, de que dias mais tarde lhe poderia chegar, como finalmente chegou, a inquietante notícia de que Betsabá emprenhara. E o que era pior é que nem havia como ao menos pensar em impor a Urias a coautoria naquela delituosa e indesejável gravidez, já que de há muito estava ele ausente das intimidades conjugais, posto que metido nos embates de mais uma daquelas guerras intermináveis, desta feita com os belicosos amonitas.
Foi então que se descobriu David a inventar enredos os mais fantasiosos, a planejar as desculpas as mais esfarrapadas, a urdir, enfim, quando já não encontrava jeito que desse jeito, detestável cilada em que confiava pudesse enredar Urias, de forma a odiosa e cinicamente construir um cenário que o fizesse trair-se com a ilusão da paternidade.
Editou, então, fosse o corno devolvido a Jerusalém, o que de pronto foi feito, como de se esperar frente à altiva ordem do soberano. E mal chegou Urias e já arrajou David uma forma de estimulá-lo a dar um pulo em casa, na certeza de que as lembranças dos calores e dos agrados da mulher, somados às carências instaladas por já nem contadas noites de abstinência, faziam a conta e a receita que desembocariam em uma fornicação redentora.
Mas já foi dito que Urias era um súdito íntegro e um soldado devotado, pelo que não houve meio ou maneira de fazê-lo arredar o pé de onde postada a guarda do palácio real, nem mesmo naquela noite em que tanto fez David que terminou por encharcá-lo com uma multidão de cálices do precioso vinho da sua adega palaciana, certo de que não lhe tendo vencido a dililigência castrense pela força do mero convencimento, por certo que o faria pelo nublamento da embriaguez, conseguindo, afinal, levar o desavisado a se perder pelo engodo que era empurrado a se perpetrar.
Novo malogro, porém.
– Rogo-vos perdão, meu Senhor, para resistir à vossa soberana vontade. – Foi o que assustado gaguejou Urias, todo sem jeito e afobadamente incerto de onde por as mãos. – Que julgamento faria Vossa Majestade de mim, como súdito e como soldado, se ainda que dispensado por pouco tempo e para algum aconchego de há muito não desfrutado no leito nupcial, eu me afastasse do meu posto enquanto que Joab, vosso valente General, bem como todos os demais bravos da vossa guarda real, permanecessem a dormir na terra nua, na vigilância que vos garante a segurança?
Não há registro do como reagiu David, ao menos com palavras e gestos, a tamanho depoimento de altivez, fidelidade e desprendimento. Mas é mais do que certo que lhe foi devastador o desespero que tal renitência lhe cravou, ao menos, pelo que se pode tirar, da evidência de que talvez até enxergando um laivo de soberba em tanta abnegação e reverência ao dever, foi buscar arrego no extremo, drástico e deplorável recurso que ousara projetar.
– Vai Urias. – Ordenou austeramente David, enquanto se erguia do trono e enviava a franja da túnica por sobre o seu ombro esquerdo. – Leva esta mensagem a Joab. E saiba que pela gravidade e pelo sigilo só a posso confiar a alguém discreto e expedito como você.
Só não sabia Urias que estava ele a ser perfidamente feito portador da sentença que decretara a sua própria exterminação, pois que Joab, mal recebeu o despacho e devassou-lhe o conteúdo, já sem qualquer detença cuidou em dar súbito e estreito cumprimento ao édito que lhe era mandado executar, destacando o incauto mensageiro para combater ao pé da muralha da cidade sob cerco, pois que ali onde mais encarniçada a peleja.
E se só por estar ali não mais haveria quem se encorajasse a apostar um tostão furado no seu retorno são e salvo, ainda foi o General meticuloso em se garantir, no que igualmente submisso a expressa determinação real, de que não sobraria nenhuma esperança de sobrevida ao desditoso combatente, quando recomendou fosse mantido à míngua de qualquer cobertura.
Daí por que Urias, sem que fosse preciso mais do que muito pouco aguardar, logo foi varado por uma flecha certeira que lhe assinou o atestado de óbito.
3
A PENITÊNCIA
Nunca conheceria David, pelo que testificam os anais que contam a sua história de monarca belicoso, notícia de baixa que, desfalcando as suas forças, pudesse lhe ser causa de tão contraditório alívio.
No caso, entretanto, era isso de se ter como muito mais do que compreensível, eis que finalmente se via exonerado, ainda que ao custo de duras penas, da constrangedora expectativa de revelação que por inevitável enodoaria a sua imagem como governante e como homem temente e caro ao Altíssimo, além do que despertaria a desconfiança dos reinóis. De mais a mais encolheria ou desvastaria a respeitabilidade que arrecavadava no meio da classe sacerdotal e afora tudo isso inseminaria o desconcerto no trato com as suas mulheres. Depois, uma vez que mais não seria necessário que aguardar que honrasse Betsabá o não assim tão longo período de luto que lhe impunha a tradição pela recente viuvez, para que pudesse ele oficializar a investidura da favorita, em caráter efetivo, como troféu residente na sua suntuária camarinha.
O seu júbilo, contudo, seria ensombreado pela incômoda visita de Natã, o profeta e filho de Atai, cujo semblante, já de longe perscrutado, anunciava a severidade do veredicto cuja notificação a David fora-lhe encomendada pelo Sempiterno. Sentença, aliás, que contra ele fora proferida bem ao feitio daquelas paridas pelos tribunais de exceção, desde que não há registro de observância do devido processo legal, com garantia de contraditório e de oportunidade de ampla defesa, além do que de logo se sabia que não suportaria o percurso de qualquer via recursal.
Mas nem cabe questionar tema como esse, haja vista que tendo sido julgador o Eterno e sendo Ele onipresente e onisciente, pelo que a tudo assiste e de tudo sabe de ciência própria, logo independentemente das abusivas intromissões dos serviços de inteligência, é claro que de antemão já tinha total conhecimento de tudo o que acontecera, seus motivos, suas circunstâncias e suas consequências, bem como do que poderiam dizer as testemunhas e alegarem David e Betsabá aos seus favores, donde a perda de tempo em reunir documentos, ouvir fastidiosos depoimentos e suportar as prolixas e palavrosas discurseiras de advogados de acusação e de defesa.
De se não deixar de levar em conta, além do mais, que nem David nem Betsabé seriam simplórios a tal ponto de não engendrarem motivos quando nada mascaradores de suas abominações, nem se poderia nem de longe acreditar que qualquer súdito, uma vez que com o juízo no lugar, iria desafiar a malquerença do moncarca, jurando contra ele ou contra a barregã que mais tarde tomara como esposa. De resto, a sobrenatural singularidade de que, sendo quem era o Magistrado e assim diferentemente dos togados terrenos que, tapeados pelas adquiridas soberbas, edificam-se em falsos semideuses, tinha ao seu alcance pessoalmente escutar a alma da vítima desencarnada, assegurando-se o conhecimento da sua versão dos fatos.
Desnecessária, por tudo isso, a lenga-lenga das intermináveis formalidades forenses, até porque de previsível remessa a procedimentos de cursos comumente quase condenados à perpetuidade, valendo mesmo é que a sentença veio tão rápida quando sempre haveria de vir, em qualquer juízo, tribunal ou instância, estando ali Natã, na função de improvisado meirinho enviado pela alçada divina, com a missão de dela intimar o condenado.
– Abomináveis foram vossos pecados contra as ordenações do Eterno. – Foi logo bradando Natã, sem usar panos mornos e por detrás do dedo em riste, avivando em David a memória de que ele não apenas incorrera em adultério, como também arquitetara e com ostensivo dolo eventual promovera a morte do marido da sua amásia, para assim poder recebê-la como esposa.
Veio então a melhor parte:
– Mas a vossa sincera contrição foi agradável aos olhos do Senhor. – Avançou o profeta. – E foi por isso que Ele acolheu as vossas súplicas e vos perdoou.
Antes, porém, que David ficasse ancho pelo estímulo da impunidade, outra vez a trovejante voz de Natã, com a expressão indiferente de quem carrega o entendimento de que portador não merece castigo, a lhe agora dar saber da pior parte:
– A vossa pena, portanto, foi abrandada, pelo que não tereis a vida abreviada pela mão do verdugo ou pela providência do Eterno. Morrerá, porém, o filho há pouco nascido e que vos vem de dar Betsabá, pois que engendrado em leito adulterino.
Um solene entreato e chegou a hora do elenco das sanções acessórias:
– O vosso reinado, doravante e até final, não conhecerá um só dia em que se não escute o tinir das espadas. Havereis de padecer sob conspirações que se alevantarão de dentro da vossa própria casa e se espalharão pelos atos dos que vos compartilham o sangue. As vossas mulheres vos serão publicamente tomadas à luz do sol e não às ocultas, como fizestes com a esposa de Urias.
Nada mais do que isso disse Natã a David, dando meia-volta e sumindo pela porta do circunspecto salão de despachos. Nada mais de David escutou Natã, ficando o monarca, com a cara no chão, arrasado com a antevisão das provações que o esperavam, mas nem por isso menos intrigado quanto ao porquê do terem os outros de dolorosamente purgar as faltas que fora ele quem cometera.
E já na semana seguinte, para a inevitável desesperação do ruivo, bem apessoado, cobiçoso, temperamental, lascivo e delinquente ungido, nem as suas preces as mais fervorosas, nem as suas promessas de regeneração, nem ainda o seu debilitante jejum que percorreu vários dias, tiveram serventia que o absolvesse do calvário de sepultar o rebento de Betsabá.
E daí para a frente a cada vez mais se desmantelou o destino de David, até dando calafrio contar as ocorrências que a partir de então se sucederam.
Para não se ser inconveniente, gastando-se a paciência dos outros com relatórios encompridados e maçantemente minudentes, seria bastante lembrar que dali mais um tempo e Ammon, seu filho primogênito, enrabichou-se pela irmã consanguínea Tamar, que por sua vez era irmã germana de Absalão, terminando por tomá-la à força e ferozmente estuprá-la. O que se diga que demorou um pouco mas lhe valeu a vingança fratricida de Absalão, que o abateu pelos cutelos dos sicários que arregimentou.
Mais um tanto ainda e o mesmo Absalão, que assim como Tamar fora tido por David com Maaca, levantou-se em armas contra o pai, afoito em lhe arrebatar a coroa, vindo a ser executado por golpes desferidos por Joab e por seus comandados, no dia em que ao tentar escapar no lombo de uma mula, depois de uma malograda batalha contra o exército do rei, seu genitor, teve a desventura de ser surpeendido com o enroscar-se das longas madeixas em um galho de carvalho, onde pendurado e indefeso foi presa fácil aos seus impiedosos perseguidores.
Se era, portanto, para ficar a lição de que o Deus de Israel, embora implacável com aqueles que, infringindo as suas imponentes proclamações mandamentais, machucavam-lhe os calos, era no dia a dia um sacrossanto manancial de misericórdia, outro foi o magistério que acabou impregnado na mente de David, eis que tomando a inclemência como regra de governança e como mecanismo de preservação do poder, mais do que nunca passou a guardar a tolerância para somente os enredos que lhe convinham.
Outra não teria sido a razão por que David, umas tantas luas mais tarde, ao gozar o sucesso das armas na tomada de Rabat, teria vociferado enquanto acomodava, sobre a própria fronte, o diadema que vinha de arrancar da cabeça do rei amonita:
– Que todos esses idólatras, sem que escape ninguém, sejam arrebanhados e levados para fora dos muros da cidade. E que lá estando todos reunidos, inclusive as mulheres e as crianças, que sejam passados ao fio da espada, lançados os seus pedaços para que sejam esmagados pelas rodas ferradas dos carros de combate e depois incinerado o que sobrar em fornos de cozer tijolos.
– Esse será o castigo, porque esta a vontade do Deus de Israel. – Arrematou triunfante.
Foi quando ainda que abatido ousou interpelá-lo o monarca deposto:
– É essa a justiça do vosso Deus, Aquele que em vossos hinários é aclamado como compassivo e generoso?
David nem deu confiança de lhe estender o olhar, quanto mais lhe dar uma resposta.
– Será David quem se submete à crueldade Daquele que declama como o Altíssimo ou será que que invoca David um Altíssimo em quem ousa colar a sua própria crueldade? – Acrescentou sem que houvesse quem lhe escutasse a voz embargada, eis que abafada pelos urros ensandecidos dos que se prepraravam para matar e pelos prantos inconsoláveis dos que não estavam prontos para morrer.
Não seria de espantar, portanto, tivesse o apeado rei amonita então professado, assim como quem quer que seja de quantos outros ainda hoje espremidos pela despostia das crenças, que até se pode duvidar de que Deus tenha criado o homem segundo o seu modelo, mas nunca de que o homem sempre teimou em caricaturá-lo à sua imagem e semelhança.